
TOM GRITO
COMPOSIÇÃO: Tom Grito, Jef Lyrio e Sergio Kauffmann
Caetano Veloso
não é daqui
Caetano Veloso
Não é daqui
Elba Ramalho
Não é daqui
Alceu Valença
Não é daqui
Os paraíbas
Não são daqui
A macaxeira
Não é daqui
O seu dendê
Também não é daqui
A Maniçoba
Não é daqui
E o pão de queijo
Também não é daqui
As travestis
Elas não são daqui
Transmasculines
Também não são daqui
Os não bináries
Não são daqui
As Bi, bee e sapas
Também não são daqui
Meu território
Não é aqui
Meu corpo habita
O meu sentir
O meu futuro
Está por vir
O nordestino não é Paraíba
O Favelado não é criminoso
O nosso Rio continua lindo
Xenofobia é um trem horroroso
Aliás o trem
Também não é daqui
Mas o miliciano
Certamente é
Os atrasados
Sempre estão aqui
E os bispos
Que vendem a fé
As praias lindas
Também são daqui
E o Cristo e seus braços
Ainda estão de pé
Vamo marcar,
Ainda tô esperando
Bora marcar
Assim que der
O carioca
É muito maneiro
Caraca maluco
Certamente é
O carioca
Nunca marca nada
E se não desmarca
Atrasado é
Tem violência
E muita maldade
Xenofobia
Injustiça e fé
Roda de samba
É nossa verdade
A democracia
Surfa na maré
O carioca
É um sobrevivente
Mas ama o Rio
Com todas as forças
E se pudesse
Dar rolê de cria
Te ensinaria
Aqui é rolé
Com o peito cheio de farinha
com o peito cheio de farinha
e um coração de galinha no espeto
amar essa cidade
é ver quase nenhum defeito
é entender que mate, limão, globo, água, coca latão
bala bala xiiiclete
tem a mesma sonoridade que o pagode e o samba
que balanceia o caminhar do trem
e oferece a liberdade de quem manda
aqui não tem ninguém mandado
seja eu, você, a gente, ou nós
esse povo brilha com a própria voz
de quem chia, sibila, sacode a poeira e dá a volta por cima
pura marra de gente maneira
caraca, moleque aqui contagia
tá mec, tá shock, tá show, tá babado
é rolé e não rolê, seguinte, vou te falar um neģócio, anota esse recado
aqui a gente come bixcoito, não fique afoito, fica suave, tranquilo
carioca, vale o que pesa. e aqui o que se come é aquilo, aquela parada, valeu, falou.
bem vindes à minha cidade, e se tu é daqui, falô, demorô


Não sou de ter
Não sou de ter
ritório
Nem vou me ater
risar
Pra me deter
notório
Bastava a rua
inar
Todo poeta canta pra lua
O carioca dança na rua
Todo profeta prevê dragões
Se Rio gargalho com multidões
No tarot ou baralho suas previsões
Não basta, me Bastos de Magalhães
Eu mimado
com um copo
custou milhões
A Manu toca cuíca e
Nem trupica
Eu mi Madu e a Aroeira
Mim má Madu Madurá
Madureira
Cabô meu pai
Cabô cacique
Nem flor
Nem Ramos
Nem Carambola
De bola, crack
Saiu da Escola
Bolado, avião
Meu samba de
Aeroporto
Luzia
Na contramão
Bip bip
Canta canta
Minha gente
Da gema
Da borda
Do canto
Da Cruz
No reinado
Ou no império
Sobe a serra
Desce a escola
De Oliveira
Se lassss
Estivesse
Y voô
Ne lá
Raiá
Laiá
Raiá
Voa
Gam
Boa
O
SAm
Bahh!
Voa
Trabalho
Todo dia
Toda segunda
É de trabalho
a dor
Me em Penho
Em pencas
Al Freddo
Às pampas
Às Penhas
Al dir
Blanc
Balanças
Aspas abram
Alas Césamo
Central
Estação
Primeira
do Carnaval
Manga rosa
Verde doce
Azul branco
Outra parada
Sem princesa
Resta vila
Natal Noel
Rena Luz
Moa
Voa Meu
samba
Voa

TOM GRITO (ele/élu) é poeta. Dedica-se à poesia falada e às micro-revoluções político-sociais onde a poesia incinera, afaga, afeta e transforma.
Pessoa não binárie transmasculine.
Pioneiro da cena de poetry slams e saraus de poesia no Brasil, participou da fundação do Tagarela (2013), primeiro slam do Rio de Janeiro, e do Slam das Minas RJ (2017), coletivo que recebeu a Ordem do Mérito Cultural do Município por seu trabalho com poesia durante a pandemia. Participa da Rede de Slams do Rio de Janeiro - Slam RJ, desde 2017.
Como slammer, participou de finais nacionais e internacionais. No campo das artes visuais foi
residente de pesquisa em artes do MAM em 2021, atuou como curador de literatura em grandes eventos e festivais de renomadas instituições como Flup, Queermuseu e IMS.
Integra muitas antologias e é autor do livro "Antes que seja tarde: para se falar de poesia" (Editora Malê, 2019)
