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RAPHAEL PIPPA

COMPOSIÇÃO EM PROCESSO
Aquele verde palanque

Terra de bambas históricos, residência de artistas e vizinhança comunitária: essas são algumas das características do Morro do Pinto, lugar apaixonante onde nasci, situado na Zona Portuária Carioca. Daquele verde palanque da Rua Carlos Gomes é possível ver a igrejinha azul e branca no topo do morro, que nos localiza entre as montanhas do Centro do Rio. No lado oposto o sol desafina em tom laranja, quase escondido atrás da montanha ao longe, iluminando a cidade e sombreando um arranha-céu enorme, que destoa da sutileza dos elementos na frente da paisagem. 

    Estamos no Bar do Molejão, hoje administrado por Elizabete Oliveira - Tia Bete - e seu filho Hioran - Molejinho aos mais chegados - para batermos um papo sobre suas impressões a respeito do território que vivem e trabalham há mais de 20 anos. Cheguei acompanhado do artista Jef Lyrio, que me convidou pra esse projeto e que no dia documentou tudo em imagens. Começamos o bate-papo quando num determinado momento reconheci o compositor Carlos Gomes parado na frente do bar e o pedi a gentileza de também ceder uma entrevista. Ele topou. Conseguimos três depoimentos de ouro naquela tarde. 

    Essas três pessoas fazem parte da minha vida desde o início da adolescência, quando passei a desbravar as ruas do morro sozinho e quando foi inaugurado o Bar do Molejão, que reunia alguns mais velhos da região apreciadores de cerveja gelada e conversa. Nessa mesma rua foi onde aprendi música com os amigos vizinhos e onde fazíamos nossas rodas de violão diariamente. Na época jamais imaginaríamos que esse território fosse se tornar tão conhecido cidade afora.

    O jeito carinhoso da Tia Bete nos dá pista do porquê aquele palanque anda tão disputado nos roteiros dos cariocas. Sua paixão pelo lugar transborda em sua fala quando diz que “se pudesse levaria o bar pra todos os lugares da cidade”. Viúva do Molejão, que foi uma das vítimas da COVID-19, tia Bete recorda a dedicação que seu esposo tinha com o empreendimento e seus clientes, trabalhando de segunda a segunda. Hoje ela faz questão de acompanhar de perto o movimento do bar e participar dos eventos durante as noites e madrugadas. “Se eu puder sempre estar junto desse pessoal, dessa garotada, eu quero estar junto deles, porque eu acho isso muito importante pra gente aqui”, afirma. Mulher negra empreendedora da região e devota de orixás, ela critica o racismo e diz que aquele é lugar onde se sente mais respeitada.

    Uma outra força articuladora fundamental daquela localidade é Hioran, filho da Tia Bete e produtor cultural. Nesse ano ele realizou muitos eventos no Bar do Molejão em parceria com artistas de diversas linguagens. Hioran era adolescente quando sua família veio de Minas Gerais para o Morro do Pinto e mais tarde se envolveu com alguns movimentos culturais da região, como o coletivo de artistas “I love MP”. Seus olhos vibram ao falar das memórias marcantes que tem dali e destaca os aniversários de sua mãe, que todo ano reúne pessoas de variadas idades e crenças.  “Essa sensação de família com o outro que tá do lado. A ajuda do próximo. É como virar a laje. Você precisa virar a laje e não tem dinheiro, você chama seu vizinho, faz churrasco, faz feijoada.” Pra ele, se o morro fosse retratado numa obra de arte, a melhor linguagem seria o samba “pra poder dizer tudo que é o Morro do Pinto”. 

    Naquele dia em que conversamos, Seu Carlos estava descendo pra ir estudar e nos cedeu alguns minutos. No começo ele já abriu sua pasta de composições e começou a cantar “A leveza de Maria” com a letra impressa na mão.

    Logo que acabou a cantoria, nos contou sobre seu nascimento e se comparou com Macunaíma, dando uma gargalhada demorada. Na minha memória Seu Carlos sempre aparece cantarolando suas composições pelas ruas sorridente, mas naquele dia ele também contou que começou a compor por conta da saudade de sua falecida companheira: “Eu abri meus olhos, abri meu sentimento com a música. Nunca imaginava de fazer composições. Isso aconteceu muito por causa da minha falecida esposa que me deixou saudades”. Em seguida, ele vasculhou sua pasta de composições e começou a cantarolar “Caranguejo” uma canção que pra mim é um clássico, pois a ouço desde sempre nas suas cantorias. Essa diz: “Nem tudo que reluz é ouro, barata brilha no escuro e é inseto. A tartaruga tem um casco duro, o caranguejo ele mergulha profundo. Tem que molhar a mão na lama pra pegar o caranguejo”. Como forma de mostrar seus sentimentos e sua maneira artística irreverente de ser, pra ele os palcos sempre foram os paralelepípedos das ladeiras e a plateia seus amigos e vizinhos. Seu Carlos é um portal de conexão com essa velha-guarda valiosa do Morro do Pinto, que por muitos anos levou a vida cultivando alguns hábitos interioranos de se relacionar e festejar. Só que bem ali no Centro, entre os ritmos frenéticos da cidade. Sinto que essas gerações anteriores preparam esse terreno acolhedor e familiar que ainda hoje se percebe. Dos pagodes de bairro onde todo mundo come e bebe bem ao modo de ser e se relacionar, devemos muito aos mais velhos que cultivaram a troca de favores e a oralidade como tecnologias ancestrais. 

    Se aquela ladeira falasse, certamente teriam o timbre de voz da Tia Lucia ou da Dona Irene, que foram marcantes lideranças femininas da rua, num tempo em que parávamos para ouvir suas histórias no pé da árvore ou quando gritavam do início da ladeira pedindo ajuda com as bolsas do mercado e íamos em bonde.

    O tempo da vida ali em cima também anda mais acelerado e existem muitos problemas de infraestrutura para muitas famílias, mas foram os interesses políticos da última década sobre a região que acirraram os ânimos entre a população e o poder público. 

    O movimento de protagonismo dos moradores da região se intensificou como resposta ao projeto Porto Maravilha, que prometia “revitalizar” o entorno do Porto para melhor recepção de turistas e atletas durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, ambas sediadas no Rio de Janeiro. Acontece que no início o projeto não previa o diálogo com as comunidades locais e a reação das lideranças comunitárias contribuiu muito para que a região fosse vista de dentro para fora. Houve protestos de resistência em frente a prédios de órgãos públicos, união de carnavalescos e agremiações e também o surgimento de alguns coletivos políticos e artísticos. 

     Talvez essa e outras partes da história não sejam contadas nos corredores dos condomínios de classe média que estão sendo construídos na parte baixa do bairro e que transformarão (encarecerão) ainda mais os serviços do entorno. Certamente essas transformações já estão ocorrendo e, em muitas medidas são indiferentes às tradições e ritmos de vida desses mais velhos, que nos ensinaram tanto. Por outro lado, é lindo ver como ali no Bar do Molejão a juventude organizada tem dado conta de inserir e contextualizar nossos mais velhos nos encontros. Há poesia nessas relações, assim como na esperança à vista daquele verde palanque.

TIA BETE
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“Se eu puder sempre estar junto desse pessoal, dessa garotada, eu quero estar junto deles, porque eu acho isso muito importante pra gente aqui”
“A minha vontade é renovar o meu bar pra acompanhar a evolução lá de baixo, mas não tirar a essência dele”
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CARLOS GOMES
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“Eu abri meus olhos, abri meu sentimento com a música. Nunca imaginava de fazer composições. Isso aconteceu muito por causa da minha falecida esposa que me deixou saudades” 
“O amor, ele brota, desde que você queira“.
HIORAN
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“A gente ainda precisa de muita estrutura de bairro. O bairro está precário. Tem uma galera chegando com essa intenção de “Porto Maravilha”, mas tem que tomar cuidado muito com a gentrificação, porque a galera que mora aqui tem que continuar habitando, tem que ter poder de consumo aqui dentro.
“Essa sensação de família com o outro que tá do lado. A ajuda do próximo. É como virar a laje. Você precisa virar a laje e não tem dinheiro, você chama seu vizinho, faz churrasco, faz feijoada.”
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RAPHAEL PIPPA é um artivista das sonoridades, das palavras e da educação. Cria do Morro do Pinto, na Zona Portuária, onde teve acesso à música através de vizinhos. Pippa é neto de nordestinos e mergulha na confluência de ritmos regionais tradicionais brasileiro com sonoridades e temáticas contemporâneas. Formou-se em canto na Escola de Música Villa-Lobos na adolescência é mais tarde na Escola Portátil de Música. Em seu trabalho musical solo de estreia “Tombo de Coragem” Pippa homenageou sua avó materna Teresa, violonista nascida na região do Cariri paraibano. No teatro, fez parte do Centro de Teatro do Oprimido durante 8 anos e mais tarde atuou em musicais infantis como “Zaquim” e “Barulinho”. Na arte-educação, Pippa trabalha na rede Sesc como instrutor de Canto Coral para idosas, além de lecionar violão e teclado para jovens e adultos e musicalização para crianças.

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