
TAYNÁ URÀZ
COMPOSIÇÃO: Tayná Uràz, Jef Lyrio e Sergio Kauffmann
Y
como se uma grande onda
vermelha se arrastasse na
ponta dos meu dedos
cortando minhas garras azuis
todas estas árvores verde-amarronzadas
secas de sol e pouca água
tomariam o tom terroso escuro-úmido
aos que vissem como raizes de manguezais
não há mais como andar sobre
esta calçada de pedra-portuguesa
viraste musgo, alga ao tempo daqui
afundar e nadar com as baleias
Guánãmará ressurgiria dos dilúvios
acima de todo e qualquer sal
acumulado nesta areia branca
do suor das mãos ao sabor do oceano
desaguaria por vezes tuas veias
aquelas que eles e vocês fecharam
entupiram
secaram
chuparam
Y
não aqui, mas agora está em cima
das cabeças suspendendo os céus
escura submersa
fluorescentes dos teus corais
sobrevivente das batalhas
uma longa vingança ao imenso retorno
a maré não vai baixar.


Descrição da fala da liderança da aldeia Marakanã, enquanto conversamos sobre a pesquisa:
"O europeu quando invadiu essa terra, que hoje se chama Brasil, pisou duro. Tanto que as águas dos rios subiram, o mar ficou mais salgado com as lágrimas do nosso povo, dos nossos ancestrais assassinados por eles. Cortou nossos troncos, quebrou nossos galhos mas não conseguiu arrancar nossas raízes. Nos trucidaram, genocidaram e até nos enterraram mas não sabiam que éramos semente e a própria terra. E as sementes brotam e renascem, como renasceram nas crianças. Katu Haw."
Urutau Guajajara - Mestre em Linguística

Lagoa do Boqueirão e Aqueduto da Carioca (fragmento) - Leandro Joaquim

TAYNÁ URÀZ é artista visual, atua como diretora de fotografia, produtora audiovisual e pesquisadora. Bacharel em Artes pela Universidade Federal Fluminense. Vive e trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo.
Em seu trabalho, emprega a imagem como memória mágica e conectiva, explorando seus desejos de conhecimento territorial para reconhecimentos sociais. Suas pesquisas de retomada são ferramentas para investigar os meios urbanos que habita, traçando comportamentos, identidades e existências.
Integrante da seleção Nova Fotografia edição 2023, no MIS-SP. Artista-residente do Laboratório de Imagens, um programa do Imagens do Povo, parceria entre o Observatório de Favelas e o IMS em 2022. Foi artista-residente do programa Capacete + MAM-RJ em 2020. E desde 2019 atua como produtora audiovisual das Brits, coletivo suburbano de skate LGBTQIAP+.
